- Bagunça é um conceito subjetivo. Pilhas de livros e papéis sobre a mesa, a cama, o sofá e as estantes podem significar desarrumação para você e um sofisticado sistema de catalogação para mim.
- A bagunça pode ser um eficaz sistema de localização. Você vê bagunça, eu vejo um mapa que indica que a folha de caderno com a matéria do dia anterior está embaixo do monte de papéis sem utilidade, a carteira de identidade está na bolsa vermelha pendurada na maçaneta e o fone de ouvido está na mesa ao lado do sofá, perto do copo com um restinho de Guaraná.
- No fundo, a bagunça é uma organização, só que criptografada.
- Bagunça é a reafirmação da essência racional do ser humano. Acredite, o par de chinelos está no meio da sala de jantar por uma razão lógica.
- O verbo bagunçar significa "arrumar a bagunça do outro".
- Aceitar a bagunça alheia é um sinal de humildade. Afinal, não é por que você não entende que não está certo.
- Organizar a bagunça dos outros é como tentar tirar uma colmeia de cima de um telhado. A intenção pode ser boa, mas vai dar merda.
- Um dia alguém resolveu organizar a bagunça do mundo; assim nasceu a burocracia.
- O filósofo grego Sócrates dizia "Só sei que nada sei.'. Dizem que ele escreveu isso depois que a criada "arrumou" seu escritório.
- Da última vez que alguém resolveu arrumar a bagunça alheia, aconteceu isso:
11. A bagunça se reproduz por brotamento. Tente arrumar e você vai ver que onde existia uma estante bagunçada, agora existem duas.
12. A bagunça transcende o conceito de tempo. Afinal, se eu tivesse tempo, teria guardado a roupa no armário e não deixado tudo em cima da cadeira.
13. Toda bagunça é um Guernica, só que em 3D.
14. Bagunça é um sinal de autoconfiança. Se eu entro no meu quarto e sei onde estão minhas chaves, nada é impossível para mim.
15. Tenha medo das pessoas muito organizadas. Se elas têm espaço, é porque se livram das coisas facilmente. Você pode ser o próximo.
A bagunça secular que tomou conta de certos lugares da minha casa foi o inimigo da vez aqui no blog. E pra mim, missão dada é missão cumprida. Como não sou boba, comecei pela parte mais fácil: o sofá. Ele não parecia tão assustador.
O problema é que a pessoa começa a arrumar uma coisa, aí olha pra outra, resolve arrumar também e quando eu vi, meu quarto estava assim:
Respirei fundo e pensei: Não vou terminar tudo em um mês! Comecei pelo mais fácil e deixei o quarto pior do que estava! Consegui bagunçar ainda mais o sofá! Sério, fazer arrumação não é pra qualquer um.
O bom de se fazer arrumação é que a gente encontra (ou reencontra) cada coisa! Se eu soubesse tanta matemática quanto a quantidade de coleções de livros que achei, eu seria mais famosa que Einstein! Era livro que não acabava mais! Hoje eu vejo minha pouca intimidade com os números e penso: "Pra que tudo aquilo, meu Deus"!
E entre paradas para ler algumas páginas do caderno de regras do não-concretizado fã-clube das Chiquititas, do meu diário d equando eu tinha NOVE anos, ou alguma revistinha da turma da Mônica, eu consegui terminar!
Sentada no meu novo (!!!!) sofá, fiquei pensando no meu próximo passo. Resolvi partir para a arrumação das fotos no computador. Demorou muito mais que eu imaginava, mas ficou tudo organizado e as fotos que quero imprimir estão devidamente escolhidas.
Agora, era hora de voltar ao trabalho braçal. Precisava encarar a estante dos artigos esquecidos.
Entre bloquinhos completamente utilizados do LANCE!, convites de formatura, textos da minha primeira graduação e um álbum completo dos Cavaleiros do Zodíaco (o primeiro que completei na vida!), as gavetas quase inexploradas guardavam muitas coisas. E acabaram transformando a minha cama nisso:
| É assim que se faz: tira-se das gavetas e joga-se na cama. Gavetas arrumadas! |
A primeira gaveta ficou vazia e já foi ocupada pelos fichários da minha irmã. A segunda e terceira ainda têm espaço livre, mas em breve ganharão novos ocupantes, com certeza.
Aproveitei que já tinha evoluído para o "level quarto" e resolvi partir para a arrumação do guarda-roupa.
Essa foi a parte mais sofrida. Sempre acho que aquela blusa que não cabe mais vai voltar a caber quando eu emagrecer os famigerados cinco quilos. Ou aquela calça que não fecha vai ficar ótima assim que eu começar a malhar.
Mas eu nunca entro na academia, os cinco quilos não me abandonam e as roupas ficam esperando eternamente na gaveta do armário, só ocupando espaço. Isso sem contar nas bolsas... tantas bolsas!
Eu me apego às coisas, fazer o que? Algumas roupas têm uma história, guardam alguma lembrança. Às vezes, me livrar delas é como me livrar das recordações também e não quero fazer isso. Desapegar só é fácil na cabeça dos donos na OLX.
E enquanto tento abrir mão de algumas coisas, vou fazendo mais bagunça...
| Passou um furacão no meu guarda-roupa e jogou tudo na cama! |
Não tem nada, mãe!!! Só não a quero mais!!! Como é difícil pra ela aceitar isso!
Aí, ela pega umas blusas pra ela, outras coisas separa pra minha irmã e umas poucas vão para doação. E as roupas só se mudam de um guarda-roupa pro outro.
Como deu pra ver, essa minha dificuldade é coisa de família.
Onde quer que estejam essas roupas, o importante é que não estão mais no meu armário e agora eu tenho espaço!!! Consegui até guardar umas caixas lá dentro! É tanto espaço que fico até sem saber o que fazer!
Depois disso, parti rumo ao desconhecido. Com um pano de limpeza na mão e uma ideia na cabeça, abri o armário de livros da garagem e me preparei para a batalha final contra a bagunça. Parecia que eu tinha aberto a caixa de Pandora. Não imaginava o que poderia sair dali. Não tinha ideia do que me esperava.
Quem sabe o mal que se escondia nesse armário? Acredite, nem o Sombra sabia.
Admito que minha imagem mental era diferente da imagem real que meus olhos encararam ao abrir as portas. Eu tinha visto esse caos quando tirei a foto acima, mas algumas coisas nossa imperfeita memória humana esquece para nos proteger. Tinha esquecido o tamanho do monstro que estava prestes a enfrentar.
Comecei tirando a caixa do aspirador da minha frente - isso foi fácil.
Depois, passei para os livros antigos do Children's course do CCAA e as agendas antigas.
Pouco a pouco, o armário começava a ganhar forma de armário.
E sem perceber eu caí na fenda temporal outrora ocultada por ele.
Li textos que escrevi aos sete anos. Na ficha com informações sobre mim tinha respondido que minha comida favorita era batata frita. E que eu não gostava quando meus pais ficavam doentes. (owwwnnn)
Encontrei minha coleção de adesivos e a super maleta com tudo: lápis de cor, giz de cera, guache, canetinhas... Sempre quis essa maleta. Ganhei uma. E eu nunca tive coragem de usar... :(
| Os adesivos, a ficha sobre mim (aos 7 anos), a maletinha e um livro da 4ª série |
| Nizan Guanaes não sabe o talento que está perdendo |
O melhor dessa tarefa não foi ganhar espaço para ser ocupado com outras coisas. Muito menos aprender a guardar menos coisas - como disse, isso é genético, it is not my fault. A coisa mais legal foi exatamente essa volta no tempo, foi lembrar de coisas que eu perdi pelo caminho, ideias que a correria da vida me fez deixar pra trás.
Foi bom recordar os sonhos que eu tinha e pensar no que fez com que eu desistisse de alguns. E refletir se não vale a pena voltar a lutar por outros. No fundo, eu percebi que a maior bagunça contra a qual todos temos que lutar constantemente é a que fazemos na nossa vida; é a bagunça que nos faz esquecer nossos verdadeiros sonhos.
Um pensamento filosófico, profundo demais ou brega. Quem diria que uma faxina poderia terminar assim.
STATUS: MISSÃO DE FEVEREIRO CUMPRIDA (E COMPRIDA TAMBÉM)!
#ummesporvez


Muito bom. Ainda que sobre temas completamente diferentes, teus 15 itens me lembrou A Queda, do Mainardi.
ResponderExcluirSensacional. parabens.
Vou procurar, Ivan! Obrigada por ter lido (e pelos elogios)!
ExcluirBjs!
Pri, primeiramente... Parabéns!! Pelo texto - que está uma delícia de ler - e pela iniciativa. Não é fácil começar a arrumar uma bagunça, e depois que se começa... Nossa, vai longe! No meu caso, eu não tenho problema em arrumar. Pelo contrário, adoro arrumações - meio Monica Geller -, a sensação de alívio ao jogar coisas fora e de nostalgia ao encontrar tesouros ultra enterrados do passado. O meu problema é manter arrumado e não ter que fazer tudo de novo seis meses depois... Algo que tem me ajudado a ser disciplinada com isso foi ter me mudado para um apartamento bem menor do que eu meu anterior - e ainda por cima, dividindo com o meu marido, que também tem muitas coisas. Ok, ainda não conseguimos trazer tudo, como por exemplo, textos das faculdades, mas essa distância tem sido boa para me fazer pensar se eu preciso de tudo mesmo. De resto, falando de um ponto de vista mais filosófico, eu acredito que essa atitude de arrumar e jogar fora ou dar coisas de tempos em tempos nos ajuda a liberar espaço, não necessariamente para novos objetos, mas também para novas possibilidades! ;)
ResponderExcluir"Abrir espaço para novas possibilidades". Disse tudo! Arrumar bagunça é exatamente isso, ou deveria ser! Aliás, deve ser cansativo ser "Monica Geller", mas eu compartilho da alegria que é encontrar os "tesouros do passado" e relembrar histórias! Na verdade, isso é que me faz demorar tanto quando resolvo arrumar alguma coisa! :P
ResponderExcluirObrigada pela paciência pra ler tudo! :)